Quando a força encontra a cooperação: a trajetória de uma mulher que transformou dor em legado

Entre desafios, perdas e recomeços, Andreia Jordani mostra como o apoio, a confiança e a união podem transformar adversidades em novos caminhos

Quando a força encontra a cooperação: a trajetória de uma mulher que transformou dor em legado
(Foto: Suseli Cristo-Rádio Universal)

Na comunidade de Santa Bárbara, no interior de Rodeio Bonito, a rotina começa antes do amanhecer. Enquanto muitos ainda dormem, Andreia Terezinha Casani Jordani já está de pé. Aos 42 anos, ela divide seus dias entre a lavoura, a suinocultura e a responsabilidade de conduzir uma propriedade rural ao lado das filhas Ana Júlia, de 18 anos, e Grasieli, de 15 anos.

A história que hoje inspira começou há quase duas décadas, quando Andreia e o marido, Evandro Carlos Jordani (in memoriam), decidiram construir juntos uma vida no campo. Foram 18 anos de casamento marcados pelo trabalho, pela parceria e pela determinação de construir um futuro melhor.

A primeira atividade foi o garimpo, mas uma crise obrigou o casal a buscar novos caminhos. Vieram a horta, a venda de verduras, o fornecimento para a merenda escolar e muitos dias de trabalho para garantir o sustento da casa.

Mas foi justamente da necessidade de se reinventar que nasceu um sonho capaz de transformar a realidade da família.

Um sonho construído a muitas mãos

Andreia sempre teve afinidade com a suinocultura. Observando o potencial da atividade e motivada pelo desejo de ampliar as oportunidades da propriedade, começou a buscar informações, estudar possibilidades e enfrentar desafios que pareciam maiores do que ela. Foi nesse momento que o Sicredi entrou em sua trajetória.

Associada à cooperativa, ela encontrou na agência de Rodeio Bonito o apoio para viabilizar o financiamento de uma pocilga com capacidade para três mil leitões, investimento que mudaria os rumos da família.

O início foi marcado por muito aprendizado. “Meu Deus do céu, o quanto a gente sofreu no começo. Teve momentos em que pensei que não daria conta. Mas o Vando – como o esposo era carinhosamente conhecido por todos – sempre dizia: ‘Vai que tu consegue’. E eu ia, eu fui, e deu certo”, recorda.

A parceria entre os dois foi determinante para que o projeto saísse do papel. “Eu nunca duvidei do potencial dele na lavoura e ele nunca duvidou do meu potencial na suinocultura. Isso sempre foi essencial para que a gente conseguisse passar pelas adversidades”, relembra Andreia.

Enquanto Evandro ampliava as áreas de produção de grãos, Andreia assumia a gestão da atividade suinícola. E o esforço deu resultado.

Com dedicação, conhecimento e persistência, ela passou a conquistar índices de produtividade que se destacaram dentro do sistema de integração, sendo até premiada regionalmente. “Eu adoro a suinocultura. Aquilo ali é o meu mundo. Eu me encontrei nesse trabalho. Tive momentos de incertezas, tristezas. Mas a cada entrega eu sempre acreditei que a gente poderia ir além”, conta.

O investimento financiado por meio do Sicredi trouxe estabilidade, ampliou a renda da família e abriu portas para novos projetos. “Foi ali que a nossa vida mudou. Acho que o maior salto que demos foi quando conseguimos construir o chiqueiro”, destaca.

Mais do que uma estrutura física, a pocilga representou segurança para a família e a possibilidade de continuar crescendo dentro da propriedade.

Quando a vida exigiu recomeçar

Em abril de 2025, a vida colocou diante de Andreia o maior desafio de sua caminhada.

Uma fatalidade tirou parte da sua base. A perda do esposo Evandro mudou completamente a rotina da família e, além da dor da despedida, ela precisou encontrar forças para seguir em frente e manter vivo o projeto que os dois construíram juntos ao longo de quase duas décadas.

Muitos teriam desistido, mas Andreia escolheu continuar. Não porque fosse fácil ou ela tivesse todas as respostas, mas porque acreditava que precisava honrar o legado deixado pelo companheiro de vida. “Seria muita covardia da minha parte desistir de tudo o que nós construímos juntos. O Vando trabalhou demais por esse sonho. Eu precisava, pelo menos, tentar. Por ele, pelas nossas filhas, por mim”, conta Andreia, emocionada.

A decisão exigiu coragem. Ela passou a assumir responsabilidades que antes estavam concentradas no marido. Precisou aprender sobre variedades de sementes, adubação, manejo de lavouras, planejamento agrícola e gestão da produção.

Também precisou vencer os próprios medos. “Nunca imaginei que estaria dirigindo um caminhão carregado de grãos. A primeira vez foi um desafio enorme. Hoje já faz parte da minha rotina, mas em tudo tem Deus protegendo, caminhando junto. Ele não me deixou desistir, a minha fé também hoje me permitem estar aqui contando esse capítulo que faz parte da minha vida”, frisa.

A lavoura, que antes era liderada por Evandro, passou a fazer parte do seu dia a dia. “Tudo era muito novo para mim. Eu dominava a suinocultura, mas precisei aprender praticamente do zero sobre várias questões da lavoura”.

Foi uma reinvenção construída passo a passo. Uma escolha feita diariamente.

Três mulheres, um legado e o mesmo propósito

Se existe uma palavra capaz de resumir a nova fase da família Jordani, ela é parceria. Ao lado de Andreia estão as filhas Ana Júlia e Grasieli.

As duas participam da rotina da propriedade, ajudam no manejo dos animais, acompanham a lavoura e compartilham responsabilidades que antes eram divididas com o pai. “Elas são meus braços direitos. São meu porto seguro”, diz Andreia.

Após a perda do pai, Ana Júlia tomou uma decisão que marcou profundamente a família. Ela adiou um intercâmbio internacional para permanecer ao lado da mãe e ajudar na condução da propriedade. “Quando tudo aconteceu, ela desistiu de ir para a França e disse que ficaria aqui para me ajudar. E me ajuda muito. As duas ajudam”, conta a mãe.

A união da família se transformou na principal força para seguir adiante. “Quando penso em desistir, olho para elas. Eu não tenho como parar. Elas me fortalecem todos os dias”, destaca Andreia.

Hoje, mãe e filhas compartilham não apenas o trabalho, mas também a responsabilidade de manter vivo o sonho construído ao lado de Evandro, que não está mais presente fisicamente, mas certamente, de onde ele está, sento orgulho pelo legado deixado.

O cooperativismo que transforma vidas

Ao longo de toda essa caminhada, o Sicredi esteve presente nos momentos decisivos da história da família.

Primeiro, tornando possível a implantação da atividade suinícola que transformou a renda da propriedade. Depois, oferecendo apoio justamente quando Andreia mais precisou reorganizar sua vida e seus negócios.

– Se eu não tivesse conseguido construir o chiqueiro lá atrás, eu não sei o que seria de mim e das minhas filhas hoje. Por isso, sou muito grata a todos que fazem parte da agência da Sicredi Conexão de Rodeio Bonito, pois sem eles tudo seria mais difícil ou talvez eu não teria conseguido – acrescenta Andreia.

Para ela, a relação com a cooperativa sempre foi muito além do acesso ao crédito. “Quando precisei, encontrei pessoas dispostas a ajudar, a ouvir e a orientar. Isso faz toda a diferença, sempre fez”, diz.

Em meio aos desafios enfrentados após assumir a condução da propriedade, encontrou no cooperativismo financeiro uma rede de apoio baseada na confiança e na proximidade. “O Sicredi estendeu a mão quando eu mais precisei. Eles me disseram que iam ajudar a encontrar um caminho. Isso me deu segurança para continuar”.

A história de Andreia é um exemplo de como o cooperativismo impacta não apenas negócios, mas também pessoas, famílias e comunidades inteiras.

O sonho continua

Hoje, Andreia cultiva cerca de 140 hectares de soja, milho e trigo. Coordena uma unidade de suinocultura com capacidade para três mil animais e segue planejando novos investimentos para o futuro.

Mas sua maior conquista talvez não esteja nos números. Ela está na capacidade de transformar dor em coragem; de transformar dificuldades em aprendizado. E de transformar um sonho construído a dois em um legado que continua vivo.

– Desistir não é uma opção. Eu posso cair, mas Deus me dá forças para levantar de novo, todos os dias – comenta Andreia.

Ao olhar para a propriedade, para a lavoura e para a pocilga que ajudou a construir ao lado do marido, Andreia vê muito mais do que produção.  Ali estão anos de dedicação; os sonhos de uma família.

Para ela, ali está o legado de Evandro, que continua sendo honrado todos os dias por uma mulher que escolheu seguir em frente e por duas filhas que decidiram caminhar ao seu lado.

A trajetória de Andreia mostra que o cooperativismo financeiro vai muito além de operações de crédito. Ele gera oportunidades, fortalece famílias e transforma desafios em novos começos.

Algumas histórias são contadas por números; outras, por resultados. A de Andreia Jordani é contada pela coragem de continuar quando desistir parecia o caminho mais fácil, e pela certeza de que sonhos construídos com amor, trabalho e cooperação podem atravessar gerações.

Publicado por

Suseli Cristo

Suseli Cristo

jornalismo@universalfm.com.br

Autor: Suseli Cristo

Publicado em: 23/06/2026, 11:28